Se eu estivesse sentada com você agora, numa sessão, 1:1, eu diria deste jeitinho: você não está sozinha. Muitas mães me contam, com o coração apertado:
“Eu jurei que nunca faria igual… e me pego repetindo as mesmas frases, o mesmo tom, as mesmas reações.”
Respira comigo: isso não define quem você é, só mostra onde está a sua próxima cura.
O peso de repetir histórias (e por que não é “culpa sua”)
Ciclos repetitivos são como um piloto automático. Eles aparecem num grito que sai sem pedir licença, numa crítica “para educar”, num gesto de impaciência quando a rotina pesa.
Você não queria ser assim, mas algo mais forte te puxa.
A boa notícia? Quebrar ciclos é possível. Não é sobre perfeição; é sobre pequenos passos consistentes. É um ato de coragem e amor por você e pelos seus filhos.
O que são ciclos repetitivos? Exemplos reais do dia a dia
Chamamos de ciclos repetitivos os padrões emocionais e comportamentais que atravessam gerações. São atitudes que aprendemos no ambiente em que crescemos e que, sem perceber, reproduzimos.
Exemplos comuns:
- Gritos e explosões de raiva “para impor respeito”;
- Comparações e críticas constantes (minam autoestima);
- Punições severas sem diálogo;
- Ausência emocional ou física;
- Exigência de perfeição, sem validação do esforço;
- Silêncio e afastamento como “castigo”.
Eles parecem “normais” porque foram a nossa referência. Mas deixam marcas e podem ser transformados.

Por que é tão difícil parar? (cérebro, emoções e gatilhos)
Seu cérebro ama atalhos. Mesmo que tenham doído, os velhos caminhos são familiares.
Além disso, por mais que você queira mudar, e até obtenha sucesso algumas vezes, seu cérebro vai sempre fazer de tudo pra voltar pra quilo que é mais “seguro” e conhecido, ainda que não seja bom. E em momentos de estresse, fome, cansaço ou sobrecarga, é para lá que ele corre. Some a isso:
- Traumas e memórias emocionais não compreendidas
- Gatilhos (choro, desobediência, bagunça, prazos, falta de apoio);
- Falta de ferramentas práticas para agir diferente.
É difícil, não é? Mas saiba que é possível. Eu já estive no seu lugar, e posso dizer o quão gratificante e libertador é perceber que estamos conseguindo fazer diferente.
Quebrar ciclos é como aprender uma nova língua: no começo é estranho, depois flui.
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O impacto nos filhos e a chance de ser a “geração que interrompe”
Quando os padrões não mudam, as crianças podem crescer com insegurança, medo de errar, dificuldade de se expressar.
A boa notícia é que você pode ser a geração que interrompe, a que vai ter orgulho de dizer: “O ciclo acaba aqui, comigo”
O objetivo aqui não é acertar sempre, até porque isso é impossível. Mas entender que nós somos humanas, e não precisamos nos colocar num pedestal de perfeição, mas sim, termos humildade para reparar quando erramos, pensar em novas formas de agir e entender que cada pequena mudança que fazemos hoje vai fazer uma grande diferença amanhã.
Passo a passo: como quebrar ciclos na prática
Anote este roteiro. Ele cabe num post-it na geladeira.
Passo 1: Reconheça o padrão (sem se punir)
Frase-chave: “Eu aprendi a reagir assim. E hoje escolho fazer diferente.”
Troque a culpa por responsabilidade: a culpa paralisa; a responsabilidade move.
Passo 2: Mapeie gatilhos e contextos
Pequeno inventário:
- Quando eu mais explodo? (manhãs corridas? hora de dormir?)
- Com quem isso acontece mais?
- O que vem antes da explosão? (cansaço? fome? sensação de desrespeito?)
- O que eu digo para mim nesses momentos? (ex.: “ninguém me ouve”, “não dou conta”)
Passo 3: Crie novas respostas (roteiro S.O.S.)
S – Sinta e pare 10 segundos. Pés no chão, mão no peito.
O – Oxigene. 4 respirações nasais (4 seg inspirar / 4 seg segurar / 6 seg soltar).
S – Substitua. Em vez de gritar, use uma frase-ponte:
- “Eu tô ficando irritada. Vou respirar e já falo com você.”
- “Não gostei do que aconteceu. Vamos resolver juntos.”
Dica: combine com seu filho um sinal (mão em formato de pausa). Ele entende que você está se regulando, não ignorando.
Passo 4: Reparo de vínculo: o que dizer depois
Errou? Repare. Reparo não é fraqueza; é segurança emocional.
Roteiro de 3 passos:
- Assuma: “Filho, eu levantei a voz. Não é sua culpa.”
- Nomeie: “Eu estava frustrada e cansada.”
- Combine: “Da próxima vez, eu vou respirar e falar baixo. Se eu esquecer, me lembra do sinal da pausa?”
(Para crianças pequenas: abrace + frase curta. Para maiores: convide para pensar soluções juntos.)
Passo 5: Rotina de suporte: 10 min por dia
Quebrar ciclos não acontece só no momento do conflito. Sustente com micro-hábitos:
- 10 minutos de conexão exclusiva (sem celular) — jogo, desenho, leitura.
- Check-in do adulto: “Como estou? O que eu preciso?” (água, lanche, 3 min de silêncio)
- Planeje gatilhos previsíveis: se a manhã é corrida, organize na noite anterior; se a hora de dormir vira batalha, crie um ritual previsível.
Saiba como ter paciência com os seus filhos
“E se eu escorregar?” Como lidar com recaídas
Vai acontecer. Recaída não é fracasso, é feedback. Pergunte:
- O que me sobrecarregou antes do episódio?
- Qual sinal do meu corpo eu ignorei?
- Qual recurso posso preparar com antecedência? (cartão de frases, garrafa de água, alarme do respiro)
Crie um Plano B de 24h: hoje eu reduzo expectativas, peço ajuda, priorizo o básico, durmo mais cedo. Amanhã, retomo.
Esteja ciente que nós, enquanto mães e humanas, vamos errar e tropeçar. O importante é o que fazemos depois disso!

Autoconhecimento que transforma: por onde começar
- Diário de emoções (3 linhas): o que senti, o que pensei, o que fiz.
- Mapa do passado: quais frases/gestos dos meus cuidadores eu repito? Quais eu quero levar adiante?
- Rede de apoio: quem pode ouvir sem julgar? Com quem posso revezar tarefas?
Se perceber sofrimento recorrente, culpa intensa ou conflitos frequentes, considere terapia e/ou orientação parental. Pedir ajuda é amor em ação.
Como ensinar seu filho a não repetir esses ciclos
Crianças aprendem pelo exemplo e pela linguagem. Mostre o caminho:
- Explique valores da casa: “Aqui a gente se acalma antes de resolver.”
- Dialogue: “Não gritar é difícil, até para adultos. Eu estou treinando também.”
- Ensine regulação: cheirinho de flor (inspirar) e soprar vela (expirar); garrafa da calma; cantinho de aconchego (não é castigo).
- Reforce o que funciona: “Você respirou antes de falar. Isso é coragem.”
Quando buscar ajuda profissional
- Repetições que geram sofrimento constante;
- Dificuldade de se controlar com frequência;
- Relação com os filhos marcada por medo, distância ou culpa;
- Histórico de violência (verbal, física) na família.
Terapia e/ou rientação parental oferecem ferramentas e acolhimento para você avançar sem se atropelar.
Perdoar ou quebrar ciclos: qual é a diferença?
Perdoar não é esquecer nem justificar. É ressignificar: “Aquilo me feriu, mas não define meu futuro.”
Já quebrar ciclos é uma escolha diária: ajustar a rota, reparar os vínculos e praticar novas respostas. Você não tem o poder de mudar o passado, mas tem o poder de escolher como será o futuro.
Miniplano de 7 dias (pra começar sem travar)
- Dia 1: Liste 2 gatilhos + 1 frase-ponte.
- Dia 2: Combine o sinal da pausa com seu filho.
- Dia 3: Treine o S.O.S. 2 vezes sem “emergência”.
- Dia 4: 10 minutos de conexão exclusiva.
- Dia 5: Prepare um kit do adulto (água, snack, fone, cartão de frases).
- Dia 6: Pratique reparo em algo pequeno.
- Dia 7: Revise: o que funcionou? O que ajusto?
Conclusão + convite para dar o próximo passo
Você não precisa ser perfeita, precisa estar disponível para tentar diferente. Cada micro escolha sua abre espaço para uma nova história, mais leve, respeitosa e possível.
Se você quer apoio para aplicar tudo isso na sua rotina, eu posso caminhar com você.
Agende uma conversa para conhecer minha mentoria de orientação parental e, se fizer sentido, traçarmos juntas um plano para a sua família viver mais leve e muito mais unida.